domingo, 13 de setembro de 2015

MORADORES DO POVOADO CASA AZUL EM BURITICUPU SÃO PROCESSADOS PELA VALE



Francisco Chagas. Foto: Piero Locatelli
Francisco Chagas na estrada que liga a sua comunidade aos trilhos da Vale. Foto: Piero Locatelli
As quatro vacas de que Francisco das Chagas cuidava foram atropeladas pelo trem da Vale quando iam tomar água. O morador da zona rural de Buriticupu, interior do Maranhão, pediu uma indenização, mas ele conta que um funcionário da empresa ameaçou processá-lo porque o trem podia ter descarrilado.
Chagas não foi acionado daquela vez, em outubro do ano passado. Mas a Vale o processou
em maio deste ano por outro motivo: ele escreveu uma carta. No texto, ele e outros cento e
onze moradores da vila Casa Azul pediam um kit de irrigação, um pequeno trator, um posto
de saúde e o aumento da rede elétrica.
O pedido foi feito após trinta anos de uma convivência conflituosa com a empresa, que
opera a ferrovia desde os anos 80. Neste período, os moradores da Casa Azul contam que
residências racharam por causa do trem, poços artesianos desmoronaram, animais foram
atropelados, sua terra foi contaminada e seu rio assoreado. Com as obras de duplicação,
os problemas pioraram. As ruas do assentamento, localizado na beira da rodovia, deixaram
 de ser tranquilas e agora são atravessadas por caminhões e máquinas pesadas quase
ininterruptamente.
Diante de todos esses problemas, a Vale não os ajudou. Ao invés disso, registrou um boletim
de ocorrência contra os moradores e processou as lideranças comunitárias. Agora, eles estão
 proibidos de protestar e, caso o façam, deverão pagar uma multa de cinco mil reais por cada dia.
A justificativa para o processo foi o final da carta enviada pelos moradores, em que eles diziam
que, caso as reivindicações não fossem atendidas, estavam decididos “a interditar a passagem de
qualquer veículo que utiliza as estradas dentro da nossa área”.
Além de Chagas, a Vale processou ao menos oito moradores da região que reivindicavam,
através de cartas e protestos pacíficos, compensações ou empregos nas obras. Eles agora
servem de exemplo a outros moradores que queiram protestar contra a Vale em qualquer um
dos outros municípios atravessados pelos trilhos da empresa.
Em resposta enviada a Repórter Brasil por e-mail, a Vale afirma que “não ingressa na justiça
para proibir protestos mas, sim, para garantir a integridade da EFC [Estrado de Ferro Carajás]
e evitar ameaças e ações que possam resultar em sua paralisação.” A empresa também afirma
 que desconhece o caso das vacas de Chagas, mas que os proprietário são responsáveis por
 “evitar possíveis fugas [de animais] que possam gerar risco à operação ferroviária.”
Trem de ferro passa ao lado de Casa Azul. Foto: Piero Locatelli
Trem de ferro passa ao lado de Casa Azul. Foto: Piero Locatelli

O tamanho do problema

De grande importância para Chagas, as quatro vacas e o kit de irrigação significam pouco para
a empresa que corta sua terra. A ferrovia carrega a produção de ferro da maior mina a céu aberto
 do mundo, no Pará, aos portos no Maranhão. Ao menos 100 milhões de toneladas do minério
 passam anualmente por Buriticupu, em trens que chegam a medir 3,5 quilômetros de comprimento
e carregam o equivalente a mais de mil carretas.
Ao mesmo tempo em que duplica a ferrovia, a Vale está expandido o seu complexo no Pará.
A mina de ferro S11D, obra de 19 bilhões de reais, deve duplicar a produção de minério escoado
 pela ferrovia.
No começo, a população pobre de Buruticupu achou que essas obras trariam desenvolvimento
 à cidade e novos empregos. Mas isso mudou conforme as comunidades viram o desdobramento
da obra. Segundo levantamento da ONG Justiça nos Trilhos, foram três manifestações em 2012, 
seis em 2013 e 15 em 2014.
Ferrovia é esperança de emprego na região. Na foto, reforma de trilhos em Paruepebas (Pará). Foto: Piero Locatelli
Ferrovia é esperança de emprego na região. Na foto, reforma em Paruapebas (Pará). Foto: Piero Locatelli
Para tentar conter estas manifestações, a Vale usou um dispositivo legal chamado interdito
proibitório. Na prática, o mecanismo impede protestos que ainda nem aconteceram. A empresa
 pediu multa diária de 50 mil reais para quem protestasse contra ela. Os juízes acataram os pedidos,
mas diminuíram a multa para um décimo do valor.
Com os processos, a Vale não só proibiu os moradores de protestar, mas de fazê-lo dentro das
suas próprias terras e de vias públicas. Segundo a ONG Justiça nos Trilhos, as estradas de terra
fazem parte de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra),
onde parte dos manifestantes moram.
A Vale alega em sua resposta que “tem o direito de pedir a liberação de qualquer via que dê
acesso à ferrovia”. Em sua peça de acusação, a empresa também argumenta que o fechamento
de estradas por moradores do interior do Maranhão poderia ter graves consequências a toda a
 economia do Brasil. “A ofensa à operação da ferrovia também pode representar enorme prejuízo
à balança comercial brasileira, considerando os diversos contratos com siderúrgicas no exterior
e com as indústrias da agricultura, as quais, se não forem cumpridas, acarretarão prejuízos
incalculáveis.”
A mineradora também alega que tem mantido um percentual elevado de mão de obra local.
Segundo a empresa, do total de 13 mil empregados desde o início das obras, 87% são maranhenses.
Cadastro para ser processado
A estrada que atravessa a comunidade de Pau Ferrado foi um dos lugares públicos onde a Vale
proibiu os protestos. Como a vila está há cerca de vinte quilômetros da ferrovia, a empresa
 considera que ela não sofre impactos da obra, apesar de caminhões passarem constantemente
pelo meio das suas terras.
Em busca de emprego, trinta pessoas fecharam a estrada por onde passam os caminhões da Vale.
“Tem um bocado de gente precisando de trabalho. Roubar nós não vamos, mas temos que sustentar
nossa família. Por isso, nós trancamos o acesso,” diz Rogério Sousa Santos, morador da vila.
 Eles só tiveram esperanças quando um representante da Vale veio encontrá-los, ainda com a
estrada fechada. “Ele pediu nome completo e documento de todo mundo. Mas com três dias,
chegou um processo,” diz Santos.
Rogério. Foto: Piero Locatelli
Rogério Sousa Santos ganhou um emprego e um processo. Foto: Piero Locatelli
Depois de ganhar um processo, Santos ganhou um emprego. Agora recebe mil e duzentos reais
 mensais para trabalhar como sinalizador na Camargo Correa, terceirizada responsável pela
construção dos trilhos. Na situação em que se encontra, conta, não tinha como recusar o trabalho
daqueles que o processam.
Chagas, por sua vez, está resignado por não conseguir o que pediu a Vale. “Agora, o que a gente
queria mesmo é que retirassem esse processo que movem contra a gente”, conta. Questionado
 se a empresa já trouxe algo bom à comunidade onde vive, Chagas disse que nunca chegou
 benefício algum. Mas logo em seguida se corrige, e lembra a única vez que um funcionário
da Vale trouxe algo. “Teve uma vez que eu cobrei, e eles trouxeram um lápis, uma caneta e
 uma borrachinha para cada criança. Foi só isso que chegou até hoje.”
Extrído de http://reporterbrasil.org.br/2015/08/vale-processa-quem-se-manifesta-por-reparacao-e-emprego/

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